As lições da aviação

8 de fevereiro de 2017 por Ticket Log em Segurança
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Embora os acidentes aéreos ocorram e quase sempre envolvam um grande número de vítimas, as estatísticas apontam que voar continua sendo o meio de transporte mais seguro do mundo. Segundo a IATA (International Air Transport Association), entidade que representa mais de 260 empresas em todo mundo e que responde por 84% do tráfego aéreo internacional, a taxa de segurança na aviação em 2015 foi de um acidente a cada 3,1 milhões de voos. Segundo entidade, ocorreram quatro acidentes com vítimas fatais em 2015, com a morte de 136 pessoas. Os números não incluem os voos da Germanwings (março de 2015), em que o avião foi derrubado por um piloto suicida, nem o da Metrojet (outubro de 2015), suspeito de ter como causa uma ação terrorista. Comparado com o trânsito em terra, a chance de morte em acidente aéreo é de 1 em 11 milhões contra 1 em 5 mil no transporte terrestre.

A experiência do setor aéreo traz grandes lições para os profissionais de frotas terrestres. O foco em segurança congrega todo setor, principalmente na análise de problemas, incidentes e acidentes. Compartilhamento e transparência são as palavras-chave. “Em primeiro lugar, a filosofia de trabalho deve ser baseada em premissas como: segurança não tem bandeira, todo acidente pode e deve ser evitado e todo acidente tem um precursor. Segundo, deve-se ter confiança na implantação dos parâmetros de segurança na aviação em todo mundo. Terceiro: maturidade e transparência na relação entre empresas aéreas, órgãos reguladores, fabricantes, sindicatos, administradores de modais e controles aéreos”, avalia Dan Guzzo, ‎Gerente Executivo de Segurança Operacional na GOL Linhas Aéreas Inteligentes.

Lito Sousa, especialista em aviação, explica que o setor aéreo está duas gerações à frente em sistemas de prevenção. “Falamos em manutenção preditiva, um patamar acima de sistemas proativos e reativos. São esses sistemas, de altíssima tecnologia, que compõem bancos de dados cada vez mais completos e compartilhados, que por sua vez, resultam em operações mais seguras e eficientes”, explica.

As informações compartilhadas levam à soluções que trazem benefícios para todos.  Ivan Carvalho, Diretor de Segurança Operacional da Azul Linhas Aéreas Brasileiras, lembra o caso do aeroporto de Fernando de Noronha. “Após reformas, verificou-se que o coeficiente de atrito em pista molhada estava abaixo do esperado. Qual a indicação para esse caso? Deixar de voar para o destino! A operação só foi normalizada após a solução do problema. O trabalho consiste em preparar a organização quando o risco está fora de uma condição aceitável. É preferível a perda temporária de receita do que arriscar vidas e o fechamento de uma empresa por um acidente aéreo”, ressalta.

No Brasil, as estatísticas apontam evolução em segurança aérea. Segundo a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), o número de acidentes ocorridos em 2015 foi o menor registrado nos últimos cinco anos e representa a terceira queda seguida do indicador. Foram 117 acidentes com 26 vítimas fatais. “O desenvolvimento, tanto em tecnologia quanto em filosofia de trabalho, possibilitou à aviação uma evolução histórica. O avanço da telemetria e do compartilhamento das informações permitem mapear não somente o que pode dar errado, mas também saber o que está dando certo”, avalia André Machado, Diretor de Segurança Operacional da Avianca.

Sobre o fator humano, os especialistas explicam que a aviação adota o sistema de “cultura justa”. Um conceito que tem como base o tratamento não repressivo do erro quando é involuntário e indicado livremente por quem o praticou.Por outro lado impõe punição obrigatória às violações de normas e transgressões voluntárias e repetidas. “Esse tipo de conduta é adotado na aviação em todo mundo, e permite a elaboração de ações de prevenção cada vez mais eficazes à medida que erros ou falhas são sempre reportados e compartilhados”, explica Machado.

As empresas também investem em programas de saúde física e mental. O gerenciamento do risco da fadiga na atividade aérea, permite que os gestores impeçam o trabalho de profissionais quando há sinais de cansaço.Do mesmo modo, o funcionário pode dizer à empresa se está bem ou se está sem condições de desempenhar suas atividades. “Há encaminhamentos internos para todas essas situações, que podem e devem ser transparentes, sejam em casos de acidentes, incidentes ou de fadiga. Os sindicatos intermedeiam acordos de confidencialidade para preservar a privacidade dos pilotos”, explica Marcio Santos, Gerente Corporativo de Segurança do Trabalho e Saúde Aeroespacial da LATAM Brasil. Segundo o especialista, as empresas investem pesadamente em educação e treinamento, o que garante uma relação justa nesse tipo de situação. “Sem comprometimento por parte das empresas e dos profissionais, não teríamos sistemas de segurança tão eficientes”, pondera.

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