Como se adaptar aos novos tempos – de montadora a provedora de mobilidade

15 de março de 2017 por Ticket Log em Mercado
Voltar 0

O mundo assiste a maior tendência de redução da indústria automobilística. Reflexos de uma crise global que afeta principalmente a produção de carros no Leste Europeu e na América do Sul, onde hoje os fabricantes operam com ociosidade de 53% e 51% respectivamente, segundo estudo da PricewaterhouseCoopers (PwC).

Ao lado da retração da economia, grandes metrópoles vivem problemas relacionados à mobilidade.  O grande número de veículos nas ruas combinada à falta de políticas eficientes compromete a qualidade do deslocamento, causando impacto em produtividade e qualidade de vida.

Impulsionadas por esse novo cenário, as montadoras de veículos se movimentam para implantar programas e soluções que atendam um novo perfil de consumidor, focado em necessidades e desejos diferentes daqueles que orientaram a produção automobilística nas últimas décadas.

Esse é o caminho apontado pela Audi, uma das mais reconhecidas marcas entre as fabricantes de carros de luxo. A empresa lançou a Estratégia Global Audi 2025 e anuncia que quer se tornar provedora mundial de veículos de alta qualidade e líder em mobilidade sustentável, nos próximos anos.

Ao lado de marcas como Mercedes e BMW, a montadora investe nos modelos premium – que não chegam a ser considerados veículos de luxo, mas que possuem refinamento e altíssima qualidade técnica. Para isso, aposta em conceitos como esportividade e sofisticação, atributos que já caracterizam a marca, e deve incorporar soluções em digitalização, sustentabilidade e urbanização para orientar seus novos projetos.

Thiago Lemes, diretor de vendas da Audi, cita como principal estratégia a ampliação do programa Audi Select, um pacote de inovações tecnológicas, financeiras e de gestão, que deverá estar totalmente implantado até 2025. Fazem parte do projeto, a produção de modelos elétricos, novas modalidades de financiamento, soluções para frotas sob demanda e frotas compartilhadas. “O modelo de negócio das montadoras deve migrar de B2B para B2C em um futuro muito próximo”, afirma.

A Audi já desenvolve seu primeiro carro elétrico – o Audi A3 E-Tron Quattro. O modelo, que tem lançamento previsto para 2018, será composto por três motores elétricos que podem rodar até 500 km por carga completa da bateria. O novo modelo deverá contar ainda com funções de condução parcialmente autônoma através de dispositivos como sensores, lasers, radares e câmeras 3D.

O objetivo da montadora é atingir um quarto do total de vendas em todo mundo com modelos elétricos, nos próximos anos. Para isso, a montadora investe cerca de 1/3 de seu orçamento em pesquisa e projetos em carros elétricos, serviços digitais e condução autônoma.

O sistema Audi Select Driver também deve ser ampliado. Trata-se de uma solução digital de condução que muda componentes individuais para mudar as características do veículo. O sistema oferece opções no modo conforto, dinâmica, auto e eficiência. Este último, por exemplo, melhora o consumo do carro por meio de otimização de energia. O sistema é opcional, porém os modelos novos já têm saído de fábrica como item de série. “A ideia é oferecer soluções de alta qualidade a todos os modelos de veículos”, explica Lemes.

Novas modalidades de financiamento também fazem parte do pacote de mudanças Audi. A montadora, através de seu braço financeiro, deve ampliar oferecer opções de leasing operacional, um tipo de aluguel de longo prazo, bastante comum na Europa e nos EUA. Leme explica que cresce o número de consumidores, principalmente os mais jovens, que têm migrado do financiamento comum para o operacional. “Trata-se de uma mudança de comportamento, onde pagar pela utilização do bem é mais vantajoso do que ser proprietário de fato”, afirma o diretor.

Com base nessa percepção, a montadora deve lançar programas com contratos anuais do tipo time-share, modelo de propriedade compartilhada, comum para bens como iates, helicópteros e jatinhos, e que deve ganhar força para veículos novos. “Nas grandes cidades um veículo passa quase 95% do tempo de vida útil estacionado e nas mãos de um único proprietário. Para os novos tempos, a ordem é compartilhar a frota”, explica Lemes.

No modelo da Audi, um grupo formado por no mínimo três e máximo de sete pessoas poderá dispor de três modelos diferentes de veículos. Cada veículo pode ser utilizado durante um período total correspondente a quatro meses. “Os contratos permitem que o usuário possua um veículo diferente para cada época do ano – inverno, verão e férias, por exemplo – sem a necessidade de ter os três carros na garagem e pagando a mesma parcela do leasing operacional”, explica Lemes. A Audi já oferece a modalidade de leasing na Alemanha.

No Brasil, a Audi implantou o programa Audi Share, a exemplo do que já ocorre nos Estados Unidos e em Cingapura. O serviço de compartilhamento, em forma de teste, está disponível para funcionários da empresa e de empresas parceiras, e disponibiliza cinco modelos diferentes e três formas de reserva: por hora, por dia e por fim de semana. Os funcionários também podem optar pela utilização do modelo A3, com contrato de um ano e serviço de manutenção e seguro inclusos no valor mensal.

Nos próximos anos, a Audi deve anunciar diferentes ações que farão parte do plano global. “Esta é uma estrada sem volta e uma mudança significativa na cadeia produtiva automotiva”, finaliza Lemes.

Os comentários estão desativados.